domingo, 28 de setembro de 2008

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Paternidade explícita



Conheci Alice há pouco mais de duas semanas. Já a tinha visto antes, mas nunca tinha lhe demonstrado nenhuma animosidade, nem ela a mim. De repente ela estava há poucos metros e pude olhar o seu belo rostinho. Percebi seu olhar brilhante, parecendo duas jabuticabas maduras e ela me olhou fixamente abrindo um sorriso cativante que fez apaixonar-me imediatamente. Aproximei-me e ela, sem nenhum constrangimento me estendeu os braços quase saltitando. Quando a segurei, suas mãos imediatamente me acariciaram a barba e os meus óculos quase foram tirados da cara com um gesto brusco. Mais do que isso, elas amassou o meu nariz e os seus dedinhos miúdos forçaram a entrada de minha boca como se nela estivessem escondidas todas as peraltices do mundo.

Esse momento me fizeram lembrar de Ana Paula, Lucas e Juliana, meus filhos. Paulinha, a mais velha, deve completar 23 anos em novembro; Lucas fez 12 em junho e já um rapazinho também. A mais nova, Juliana, fez 7 em setembro e é a única em que ainda posso apreciar brincadeiras e carinhos infantis. Mas Alice tirou do fundo de minha memória as sensações que fazem de um pai o ser mais feliz do mundo. Aquelas que só se sente quando um filho pequenino lhe puxa o cabelo ou mete o dedo no seu ouvido tentando perceber o que tem ali dentro. Paulinha gostava muito de botar a mão inteira na mina boca. Lucas gostava das brincadeiras de briga e Juli, ah, a Juliana, essa até hoje ainda gosta de me surpreender com cosquinhas no sovaco.

Alice tem dez meses, tem a pele clara e os cabelos loirinhos em cachinhos. Lembram os de Paulinha os da Juli. Por mais de uma hora brinquei com ela, fazendo caretinhas e rindo de suas estripulias. Nesse período ela nem deu confiança para o seu pai, Ronaldo, que no ofício de diagramador dava os últimos retoques nas páginas do jornal da edição de domingo. Sua mãe, Thiely, pesquisava alguma coisa na internet e seu irmão Vinícius Gabriel, saltava de cadeira em cadeira numa brincadeira frenética.

Já há algum tempo tinha decidido que não seria pai novamente. Três filhos me bastavam e que era a hora de vê-los crescer e esperar os netos. Mas Alice me fez ter vontade novamente de experimentar a paternidade.

Outro fato recente reforçou essa idéia. Acompanhei a ansiedade de um sobrinho meu que seria pai pela primeira vez. Sua filha se chamaria Sarinha, como já relatei aqui em outra oportunidade. Sarinha nasceu, mas teve poucos dias de vida. Acompanhei o sofrimento de seu pai e sua mãe na expectativa de que ela sobrevivesse à uma complicada cirurgia feita para corrigir uma má-formação descoberta somente após o parto. Infelizmente ela não resistiu às seqüelas e faleceu na terça-feira ultima.

A história de Sarinha marcou muito minha vida. Ela fortaleceu o instinto paterno existente em mim e reforçou ainda mais o desejo de ser pai novamente surgido a partir do contato com Alice.

Há mais tempo havia observado dois pais temporões e a felicidade que demonstraram ao ser pai quando, para muitos, já poderiam ser considerados senhores da terceira idade.

O primeiro é o antropólogo Terri Vale de Aquino. Quase todos os dias ele desfila aqui, em frente ao Página 20, na rua Marechal Deodoro, carregando nos ombros o seu rebento Nixiwaka, um menininho lindo e sorridente, simpático até o último fio de cabelo.

O segundo é ex-arbitro e técnico de futebol Ribamar Pinheiro de Almeida. Há menos de um ano ele se tornou pai novamente e hoje festeja com os filhos mais velhos o belo Murilo, o xodó de Marcela Barrozo, uma das filhas mais velhas de Ribamar.

São dois casos esplendidos de homens que deram novo sentido à vida com a paternidade. A emoção de ser pai é algo inconfundível. Cuidar, dar carinho e receber o carinho da prole fazem-nos perceber a grandeza da obra de Deus e dão ao homem a esperança de permanecer vivo, mesmo que seu corpo já se tenha ido. Esse também é o meu desejo.

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Um comentário:

Marcela disse...

Meu pai é foda! É pai, mãe e babá do Mumu e tudo isso aos 61! Só pra quem tem vocação mesmo!